O recomeço num quarto de hotel

Como é a vida nas hospedarias públicas que abrigam quem perdeu tudo o que tinha – como operários, professores e advogados.

O cheiro é azedo, uma mistura de suores.
Empurrado por ventiladores que não conseguem vencer o calor, ele se impõe pelos corredores, esbarra em tudo como se fosse palpável, gruda em nosso corpo e se funde em nosso próprio suor. No quarto 103 do Hotel Santana, uma das cinco hospedarias da prefeitura do Rio de Janeiro que abrigam ex-moradores de rua, um radinho toca Ana Carolina ao fundo, bem baixo. Eu só quero saber em qual rua/A minha vida vai encostar na tua, diz a letra. Somos quatro num quarto de 12 metros quadrados. A proximidade aumenta o calor. Dois homens dormem num beliche, outro está a meu lado, num colchão, e eu ocupo uma cama. O rapaz do beliche de cima tosse, se levanta trôpego, entra no banheiro e sai molhado do chuveiro. Ele não volta para a cama: deita pelado no chão para tentar fugir do ar quente. O locutor anuncia que são 3h30. Eu cogito desistir de passar a noite ali e voltar para casa. Olho para o lado e penso naqueles que não têm essa opção. É dormir ali ou na rua.
Num hotel parecido, a 100 metros dali, mora Rafael. Ele diz que trabalhou durante dez anos como professor de uma escola de inglês em Teresópolis, na serra fluminense. A escola era uma franquia e estava prestes a fechar as portas quando o dono propôs a Rafael que assumisse o negócio. O professor viu ali a oportunidade de dar uma virada em sua vida e realizar o sonho de boa parte da classe média: de empregado, viraria patrão. O curso, que tinha 120 alunos, quebrou em seis meses. Para se livrar de dívidas que chegavam a R$ 30 mil, Rafael entregou a franquia sem receber nada. Foi despejado do apartamento em que morava e se mudou para o Rio disposto a recomeçar. O pouco dinheiro que tinha acabou antes de ele arrumar emprego. Foi morar na rua e passou a comer só quando a caridade dos outros permitia. “Uma decisão errada, e sua vida vira de cabeça para baixo”, diz ele. Aos 44 anos, formado em turismo e com o certificado Cambridge de proficiência em inglês, virou mendigo. Hoje, seus bens se resumem a três calças, seis camisas e três cuecas, guardadas no armário de um hotel gratuito da prefeitura para ex-moradores de rua.
O professor divide o quarto com um advogado de 55 anos formado pela Universidade Federal Fluminense, uma das mais respeitadas do Rio. Como Rafael, o advogado não quer que seu nome seja publicado, nem aparecer nas fotos, resquícios de um orgulho de classe média que as ruas não levaram. Pede para ser chamado de Henrique. Ele morava com a irmã e ganhava R$ 3.500 mensais como advogado de uma seguradora. Brigou com o cunhado e decidiu sair de casa. Alugou um quarto e vivia bem até que perdeu o emprego e nunca mais conseguiu se recolocar. Foi viver na rua e teve de vender as roupas que havia comprado nos tempos em que tinha salário. Com medo de ser agredido, dormia sob as marquises do Hospital Souza Aguiar, no centro do Rio. “Por mais que você imagine que tudo pode dar errado, nunca pensa que um dia pode virar um mendigo”, diz, frustrado por ter estudado e trabalhado a vida toda. “Tem dias que me bate uma depressão e eu pergunto a Deus o que foi que eu fiz de errado.”
Rafael e Henrique são a elite de um mundo pouco conhecido: o dos 400 hóspedes que ocupam cinco hotéis arrendados pela prefeitura do Rio de Janeiro para abrigar moradores de rua. Estão no limiar da mendicância, um limbo que comporta de advogados a pedreiros, de professores a andarilhos – gente que já teve o bastante e gente que jamais teve o suficiente. Os hotéis que eles ocupam já foram pontos de encontro de prostitutas na região central da cidade. Hoje, são mantidos pela prefeitura, a um custo total de R$ 228 mil mensais, o que dá uma diária de R$ 19 por hóspede. O programa atende quem é considerado capaz de voltar a ter uma vida normal, segundo uma avaliação feita por assistentes sociais. A cidade de São Paulo tem um programa parecido, que começou em 2008: os “hotéis sociais”. São dois hotéis na região central da cidade, com 153 vagas. Os quartos recebem no máximo quatro hóspedes e lá também existem assistentes sociais de plantão. Cada usuário custa, em São Paulo, R$ 12,90. Assim como no Rio, os hóspedes são encaminhados depois de passar por uma triagem.
As regras são rígidas. Ninguém pode entrar ou sair do hotel após as 22 horas, a menos que seja para trabalhar. Não são permitidos bebidas alcoólicas nem alimento de nenhum tipo nos quartos. Não se podem receber visitas. Quem é flagrado com drogas ou bebidas alcoólicas dentro do hotel é desligado do programa. Faltas leves geram advertências. Com três, o hóspede corre o risco de sair. Na noite em que dormi no Hotel Santana, para cada regra havia um hóspede rebelde. Um homem tentou entrar com três latas de cerveja dentro do short. Mais cedo, num hotel a 100 metros dali, um hóspede denunciou outro que tinha um saco de maconha. O denunciado retrucou dizendo que as regras não valiam para todos, as assistentes sociais tentaram apaziguar e logo o dono do saco de maconha ficou descontrolado e começou a gritar. Um terceiro hóspede, com o olho roxo como quem levou um soco, se meteu na confusão e acabou pedindo para ir embora. A vigilância é severa, mas não infalível. Para burlar as normas, não é raro que drogas e bebidas entrem pelas janelas dos hotéis, içadas. A realidade da vida dura das ruas não respeita muros. Nem leis.
Uma vez que passam a viver nos hotéis, os ex-sem-teto têm mais que um lugar para dormir, com banheiro e um local para fazer as três refeições diárias. Eles ganham um endereço fixo – o primeiro passo para se candidatar a um emprego e, quem sabe, tomar um novo rumo na vida. Eles podem receber correspondência, mas não é permitido passar o dia todo na cama. Às 8 horas da manhã, todos devem deixar os quartos. Os hóspedes, ou “usuários”, podem voltar às 16 horas. Muitos não têm o que fazer durante o dia e ficam perambulando em frente aos hotéis, o que incomoda a vizinhança. “A reclamação acontece porque infelizmente as pessoas não querem o morador de rua na rua, nem o morador de rua por perto”, diz o secretário municipal de Assistência Social, Fernando William. “Esquecem que eles são gente.”
O serviço dos hotéis divide opiniões. “Isto aqui é uma penitenciária de regime semiaberto”, me diz um dos hóspedes durante o café da manhã. “Isto aqui é uma bênção, mas tem gente que não dá valor”, diz Maurício, um de meus companheiros de quarto, pouco antes de dormirmos. Maurício conta que saiu de Porto Alegre e foi para o Recife trabalhar como garçom. Ficou lá durante seis meses “comendo farinha”, porque o salário não dava para nada. Resolveu voltar para casa, pedindo carona a caminhoneiros. Conseguiu chegar apenas até o Rio, onde acabou sendo assaltado e perdendo todos os documentos. Calmo, usando roupas limpas, de cabelo cortado e barba feita, não parece alguém que dormiu nas ruas. O sotaque gaúcho, raridade entre os sem-teto, o distancia ainda mais do mendigo padrão do Rio. Maurício conseguiu emprego numa padaria e agora luta para juntar os R$ 215 da passagem de volta para casa. “Se não der certo hoje, amanhã vai dar”, diz ele.
Outro que não lembra alguém que já dormiu nas ruas é Jorge Luiz Nazareth Baptista, exemplo de um dos casos mais comuns entre os hóspedes: ex-maridos que ficam sem teto. O casamento de 13 anos com uma enfermeira sucumbiu quando a paciência dela com o desemprego constante do marido acabou. “A gente brigava muito e decidi ir embora antes de partir para a agressão”, diz ele. Jorge deixou a casa em Santa Cruz, Zona Oeste do Rio, com R$ 10 no bolso. Gastou R$ 7 na passagem até o centro da cidade, fez um lanche de R$ 3 e o dinheiro acabou. Passou a noite dormindo num banco da rodoviária e, enquanto cochilava, levaram seus documentos e seu celular. Pela manhã, sem saber o que fazer, abordou um guarda municipal. “Ele não acreditou que eu estava na rua, porque eu tinha um relógio no pulso. No final ficou com pena de mim e me mandou para um abrigo”, diz Jorge, que conseguiu um emprego de segurança numa rua de Copacabana e sonha em reconquistar a mulher. “Estive lá com ela, vi minha filha. A gente tem de sentar para conversar, mas enquanto eu não tiver carteira assinada ela não me quer”, diz ele.
Jorge abre seu armário e pega uma declaração do Ministério do Trabalho para provar que sempre foi trabalhador. O papel demonstra sua instabilidade profissional: nos últimos 11 anos foram 15 empregos. A porta do armário mostra o saldo de sua vida: uma bermuda, um desodorante, um par de meias, um barbeador, um sabonete e um perfume Amor América, da Natura. É tudo o que ele tem.
Com R$ 0,30 no bolso, Valdir vira empresário: compra um copo d’água e o revende por R$ 1
No 3º andar do hotel, o pedreiro Nilton Ferreira dos Santos, de 45 anos, também me mostra documentos. Ele teve empregos mais estáveis que Jorge, mas isso não o livrou da mendicância. Nilton trabalhou por três anos e 11 meses numa obra e saiu sem receber horas extras, folgas e outros direitos trabalhistas. Um mandado de citação e penhora expedido pela Justiça do Trabalho em 12 de junho de 2009 manda o oficial de justiça apreender bens da empresa que garantam o pagamento de indenização trabalhista de R$ 26.929,09 a Nilton. Jamais foi cumprido. Para evitar o pagamento, a empresa muda de endereço e de nome. E Nilton, sem dinheiro, foi morar nas ruas. “Isto é o Brasil”, diz ele, vestindo uma camisa da seleção brasileira de vôlei.
Estáveis, desempregados, andarilhos, ex-maridos, todos se encontram no refeitório para o jantar, onde uma TV de 14 polegadas exibe, no meio dos chuviscos, a novela Viver a vida. São 15 homens compenetrados de olho na tela. Ao ver uma das cenas, um deles grita: “Ele vai roubar sua mulher!”, tentando “avisar” um personagem. Entra um comercial de um partido político. O deputado que aparece é xingado por alguém. Ninguém conversa. Não pode. O medo da administração é que um fale, o outro que quer ouvir a novela reclame e, no fim, tudo acabe em briga. O jantar é servido em quentinhas: carne assada, arroz, feijão e purê. A comida, embora com pouco tempero, é decente. Comemos em colheres: mais uma vez por precaução, garfos e facas foram banidos.

Puxo conversa com um homem com a camisa do Flamengo. Ele não responde, mas Valdir dos Santos, de 38 anos, quer papo. Valdir tem 19 irmãos, é de Natal e vive pelas ruas desde 1993. Na gíria do hotel, é um “trecheiro” – andarilhos que vão de trecho em trecho. De carona, pedindo passagens em prefeituras ou simplesmente caminhando, já passou por 30 cidades até chegar ao Rio. Valdir sabe se virar como poucos. Conhece as “bocas de rango” – locais onde é servida comida aos mendigos por voluntários – de todos os lugares por onde passou. Aonde chega consegue um trocado e mostra que ter R$ 0,30 no bolso pode transformar qualquer um em empresário. Com esse valor, compra um copo de água mineral e o revende por R$ 1, começando um negócio. “Eu trabalho desde os 13 anos, mas nunca consegui juntar nada”, diz.

A novela acaba. Um funcionário do hotel desliga a TV e toca o povo para o quarto: “Vambora, pessoal, que amanhã é outro dia”. Os homens se levantam e saem arrastando os chinelos. No quarto, o cheiro é azedo. O ventilador de um palmo de circunferência não consegue vencer o calor. A noite vai ser longa. O outro dia demora a chegar.

(Por Nelito Fernandes – publicado na Época On Line em 01/01/2010)

Uma resposta para “O recomeço num quarto de hotel”

  1. online diz:

    o que eu estava procurando, obrigado

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